Desporto
Kevin Pina: do campo de bairro na Praia ao golo que entrou para a eternidade de Cabo Verde
O médio cabo-verdiano marcou frente ao Uruguai o primeiro golo da história de Cabo Verde num Campeonato do Mundo. Mas a sua caminhada começou por acaso, num pequeno campo do bairro onde cresceu.
Há golos que valem vitórias. Há golos que conquistam títulos. E há golos que entram para a história de um povo.
O remate certeiro de Kevin Pina frente ao Uruguai, no Mundial de 2026, pertence à terceira categoria.
Quando a bola beijou as redes uruguaias aos 21 minutos da partida disputada em Miami, o médio cabo-verdiano não marcou apenas o primeiro golo do encontro. Marcou o primeiro golo de sempre de Cabo Verde numa fase final de um Campeonato do Mundo, inscrevendo para sempre o seu nome entre os grandes protagonistas do desporto nacional.
Num país que esperou décadas para ver a sua seleção chegar ao maior palco do futebol mundial, foi Kevin Pina quem teve a honra de abrir uma nova página da história.
Um sonho que começou por acaso
Curiosamente, a carreira daquele que viria a tornar-se um dos heróis do futebol cabo-verdiano começou de forma inesperada.
Natural da cidade da Praia, Kevin Lenini Gonçalves Pereira de Pina cresceu rodeado pelo futebol de rua, como milhares de jovens cabo-verdianos.
Numa entrevista ao canal Record D’Nos, recordou que tudo começou quando costumava assistir aos treinos de uma escolinha de futebol no seu bairro.
Um dia, a equipa estava sem um jogador e o treinador convidou-o a participar.
Aceitou o desafio.
O desempenho chamou imediatamente a atenção dos responsáveis e o jovem recebeu o convite para regressar.
Foi o primeiro passo de uma caminhada que, anos mais tarde, o levaria aos maiores palcos do futebol internacional.
Depois da passagem por várias equipas de formação, incluindo a conhecida escola Bola Pra Frente, Kevin continuou a evoluir até chegar ao futebol profissional.
Da Praia para o futebol europeu
Hoje, aos 29 anos, Kevin Pina representa o Krasnodar, um dos principais clubes da Rússia.
Desde a chegada ao emblema russo, em 2022, consolidou-se como uma peça importante da equipa e tornou-se um dos jogadores cabo-verdianos com maior projeção internacional.
Mas apesar do percurso europeu, nunca perdeu a ligação às suas origens.
Quem o conhece descreve-o como um atleta discreto, trabalhador e disciplinado, mais focado no rendimento dentro das quatro linhas do que na exposição mediática.
Essa postura ajuda a explicar porque o seu nome raramente aparece nos grandes holofotes do futebol internacional.
Até agora.
O golo que ficará para sempre
Perante o Uruguai, Kevin Pina assumiu a responsabilidade num momento de enorme pressão.
À frente tinha uma seleção bicampeã mundial. Atrás, uma nação inteira a sonhar.
Com personalidade e confiança, cobrou o livre direto de forma irrepreensível e fez aquilo que nenhum cabo-verdiano tinha conseguido antes num Campeonato do Mundo.
O estádio explodiu.
As redes sociais explodiram.
Cabo Verde explodiu de alegria.
Em poucos segundos, Kevin Pina deixou de ser apenas mais um internacional cabo-verdiano para se tornar parte da memória coletiva do país.
O discípulo de Iniesta
Ao longo da carreira, Kevin nunca escondeu quem foi a sua principal inspiração futebolística.
O médio espanhol Andrés Iniesta, campeão do mundo pela Espanha em 2010 e autor do golo decisivo da final frente aos Países Baixos, é a grande referência do internacional cabo-verdiano.
A inteligência de jogo, a capacidade técnica e a visão de campo do antigo craque do Barcelona influenciaram a forma como Kevin passou a interpretar o futebol.
E há uma curiosa coincidência.
Tal como Iniesta ficou eternizado pelo golo mais importante da história do futebol espanhol, Kevin Pina acaba agora por ficar ligado a um dos momentos mais marcantes da história do futebol cabo-verdiano.
Um lugar garantido na história
Independentemente do percurso que Cabo Verde fizer neste Mundial, ninguém poderá retirar a Kevin Pina o estatuto conquistado em Miami.
O médio da Praia tornou-se o homem que marcou o primeiro golo de Cabo Verde numa fase final do Campeonato do Mundo.
Num país apaixonado por futebol, esse é um feito que atravessa gerações.
Porque os Mundiais passam.
Os resultados mudam.
Mas há momentos que permanecem para sempre.
E Kevin Pina já garantiu o seu lugar na eternidade do futebol cabo-verdiano.
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